Desde as mais primitivas representações da natureza e sua pungente relação com o feminino, as bruxas foram ressignificadas ao longo da história… Então, será que temos bruxas ainda hoje?
Nesse período do dia das bruxas, cabe a reflexão das razões que levaram tantas mulheres a serem assim classificadas e, muitas vezes, demonizadas por possuírem e expressarem destreza com a natureza e, também, com a liberdade em seus próprios corpos. “Bruxa” não era um termo autodeclarado, mas uma acusação. Hoje, podemos, também, ter a liberdade de pensar diferente e, para isso, o convite é voltar ao passado…
As primeiras deusas eram mulheres!
Os registros ainda no paleolítico nos trazem pequenas estatuetas chamadas de “Vênus” que tinham formas femininas: grandes seios, um grande ventre e sua genitália bem marcada. Por que os humanos primitivos se preocupavam em produzir essas representações? Primeiramente, fica clara a importância dada à capacidade feminina de carregar, parir e nutrir as gerações seguintes, o que pode ter sido interpretado, de forma muito lógica, como uma característica sagrada, divina mesmo. Dessa forma, a mulher foi o primeiro ser sagrado e, muito provavelmente, adorado registrado na história da humanidade, uma vez que as mulheres eram o portal para o futuro e seu corpo carregava a ciclicidade também observada nos demais fenômenos naturais.
E, vejam só. Para toda a história da humanidade, como foi importante perceber os ciclos, as repetições, pois só assim era possível prever o próximo passo e, só por isso o ser humano evoluiu suas técnicas de domínio da terra, do tempo e dos recursos para sua subsistência.
Mas, quando as mulheres foram perdendo espaço em sua divinização? As histórias das culturas humanas nos dão pistas da transição do sagrado e divino da mulher para a ideia da bruxa repulsiva. Vamos conferir?
As deusas gregas e romanas eram recortes de características femininas
Já nos registros históricos muito bem estudados das mitologias grega e romana, percebemos que a mulher divinizada perdera sua plenitude e complexidade de suas fases naturais e, com isso, passava a representar apenas alguns aspectos selecionados de toda a complexidade feminina. Observamos o surgimento de deusas mais dóceis, amáveis e daquelas mais selvagens, fortes e, às vezes, já não muito amadas ou compreendidas por todos.
O que acontece aqui? Uma cisão do feminino. As divisões que culminarão em bem e mal, sagrado e profano, pois com o domínio do cristianismo sobre as outras culturas, passou a existir o ideal de feminino santificado: a virgem Maria. Concordam que bem diferente das “Vênus” rústicas do paleolítico, não é mesmo?
Nesse momento, a mulher enfrentou seu encarceramento, pois perdera sua sacralidade na visão coletiva. O divino ficou reservado à Maria e todas as outras mulheres jamais estariam à altura de sua Graça e divindade. A mulher passa a enfrentar as consequências de ser, por sua relação íntima com a terra, seus ciclos e sua natureza, afastada do céu e posta na terra, em oposição ao divino e sagrado… chegamos à era da caça às bruxas.
Bruxas, forca, afogamento e fogueira
Com a perda de sua importância na cultura e religião cristã, a mulher foi extremamente desvalorizada na sociedade e, mais do que isso, as mulheres que não eram mais produtivas ao coletivo (com trabalho ou filhos), ou as mulheres que se serviam da terra para ter controle de seus próprios corpos (através de ervas, curas e sabedoria medicinal) e ainda eram parteiras e curandeiras de outras mulheres, foram estigmatizadas e associadas aos demônios, lançando o conceito de bruxa que perdura no imaginário popular até hoje: aquela mulher misteriosa, que possui poderes e autonomia, sendo perigosa à toda sociedade e, por isso precisava ser caçada e combatida. Ela não era sagrada, ela era demoníaca.
Essa percepção coletiva é ainda muito reforçada, mesmo hoje, pelos livros e filmes. Basta lembrar de como as bruxas são descritas em clássicos do consumo infantil: Branca de neve, A bela adormecida e muitos outros contos, recontos e filmes.
Tradições, sabedoria, autonomia e poções foram perdidas com essas mulheres
Quando essas curandeiras dominavam os métodos anticoncepcionais, as medicinas curativas e, com isso, a liberdade delas e de outras mulheres, é porque possuíam íntimo contato com a natureza e com sua ciclicidade. Tinham em suas mãos e sua sabedoria a destreza de preparados com plantas medicinais e com os ciclos também da terra. Essa habilidade foi reconhecida como uma ameaça aos seus opressores e muitas dessas mulheres padeceram à caça ás bruxas, levando consigo mesmas aquele saber natural e ancestral de todas as mulheres de antes delas.
Pensando em ciência, quanto de saber prático se perdeu alí? Quanto tempo demoraremos para redescobrir o que elas já sabiam das plantas, da natureza e delas mesmas? Talvez esse seja o momento de repensar nossa relação com o íntimo da sabedoria e da sensibilidade feminina, redescobrindo nas plantas a força da reconquista do divino e do sagrado da feminilidade… as bruxas das plantas, da natureza, as mulheres das poções e das sinergias, as mães que cuidam e curam com extratos naturais e com óleos essenciais… por que não?
Hoje vivemos em um momento de transição em que o olhar científico se abre para a potência das plantas e as múltiplas potencialidades dos óleos essenciais. Por isso, carregar essa sabedoria e diligentemente desenvolver as suas habilidades com essas ferramentas naturais, não seria uma nova bruxaria? Livre de estigmas, de demonização, de prisões e julgamentos… o reencontro com o natural, com o feminino e com os ciclos da vida e da plenitude do ser completamente mulher.



